O Que Se Perde Quando Trocamos um Analista por um Algoritmo

Às duas da manhã, uma inteligência artificial responde em segundos, mas existe algo que só um analista humano consegue escutar no silêncio entre as palavras. Uma provocação sobre presença, Psicanálise e o que nenhuma máquina substitui.

COMPORTAMENTOPSICANÁLISEFILOSOFIA

Prof. Marcelo Magoga

6/23/20264 min read

Duas da manhã, a tela acesa, o quarto escuro, o polegar deslizando sobre o teclado como quem reza. "Estou péssimo hoje." Três segundos depois, a resposta chega articulada, gentil, cheia de validação. Ninguém precisou esperar, ninguém teve que marcar horário, atravessar a cidade, sentar-se numa cadeira que ainda guarda o calor de outro corpo. A dor encontrou ouvido na mesma velocidade em que foi digitada.

E, por um instante, funciona. A angústia recua um degrau, a pessoa sente, finalmente, que disse algo a alguém.

Só que não disse a alguém, só disse a algo...

Não escrevo isso para assustar ninguém, nem para colocar a tecnologia no banco dos réus. Uso inteligência artificial todos os dias para organizar ideias, revisar um texto, até para pensar em voz alta quando a cabeça está cheia. O problema nunca foi a ferramenta, mas é o que confundimos quando a ferramenta começa a ocupar um lugar que não é o dela.

Conheço a cena de muitos consultórios diferentes, mas ela se repete com uma regularidade quase cruel: alguém chega contando que "já vem conversando bastante com uma IA sobre isso" antes de finalmente decidir procurar terapia. E o que mais me toca não é o conteúdo das conversas que geralmente são lúcidas, bem escritas e até tecnicamente corretas. É o tom de quem fala comigo depois. Um tom de quem foi, durante meses, muito bem informado e muito pouco acompanhado.

Informação e presença não são a mesma coisa. Uma me diz o que é a ansiedade e a outra fica comigo enquanto eu a atravesso.

Há algo que acontece numa sala de análise, no set analítico, que resiste a qualquer explicação simples, e que a Psicanálise batizou, há mais de um século, de transferência. Não é apenas confiança, nem simpatia, nem vínculo no sentido comum da palavra. É o fenômeno estranho pelo qual o analisando, sem saber, começa a reviver diante do analista, e com o analista, afetos antigos, figuras antigas, feridas que nem sabia que ainda sangravam. E o analista, por sua vez, sente isso, não porque é especialmente sensível ou iluminado, mas porque também é um corpo, que tem história, também é atravessado por contratransferência, ou seja, aquilo que o analisando desperta nele, e que, bem trabalhado, se torna instrumento de cuidado.

Esse jogo de dois inconscientes não tem como ser simulado por um sistema que, por mais sofisticado que seja, não tem inconsciente nenhum para colocar em jogo. Ele pode imitar empatia, mas não pode ser afetado, ou seja, são imitações ou emulações de sentimentos e emoções.

E é justamente o fato de o analista poder ser afetado, de carregar, depois da sessão, um resto de você dentro dele, sem saber muito bem o que fazer com isso que transforma o encontro terapêutico em outra coisa. Heidegger usaria a palavra cuidado, Sorge, para descrever essa estrutura mais original do que qualquer técnica: cuidar de alguém é deixar-se importar pela existência do outro, e não apenas processar dados sobre ela.

Tem uma frase que ouço, em variações, quase toda semana: "eu sei o que eu devia fazer, só não consigo fazer." E é aí que a diferença entre conversar e ser acompanhado fica mais nítida. Uma inteligência artificial, treinada para ser útil, tende a responder rápido, com clareza, com solução. Ela quer, e foi feita para isso, resolver a pergunta de maneira mais prática possível. Mas existe um tipo de pergunta que não quer ser resolvida, que quer ser e deve ser elaborada. Quer tempo, quer voltar, três sessões depois, disfarçada de outro assunto, até que o analisando perceba, sozinho, o que estava ali desde o início.

A pressa por resposta é, talvez, o sintoma mais silencioso do nosso tempo. Confundimos alívio com cura. E uma máquina que responde em segundos, sem nunca hesitar, sem nunca dizer "deixa eu pensar melhor sobre isso", reforça em nós a ideia perigosa de que toda dor tem solução imediata, quando, na verdade, boa parte do sofrimento humano só se transforma com a lentidão.

Merleau-Ponty escreveu que percebemos o mundo com o corpo antes de pensá-lo. Um analista não escuta só as palavras: escuta a hesitação antes da frase, o silêncio que dura um segundo de mais, a voz que treme num lugar onde o conteúdo dito era trivial. Escuta a contradição entre o que a pessoa diz que sente e o gesto que ela faz enquanto diz. Nada disso está no texto digitado numa tela às duas da manhã. A IA lê o que foi escrito. O analista lê, também, o que não foi.

E aqui chego no ponto que mais me preocupa, com a delicadeza que o tema exige: vivemos talvez a geração mais conectada e mais só da história. Trocamos presença por disponibilidade. Trocamos olhar por resposta automática. E uma inteligência artificial, generosa, paciente, sempre acordada, nunca cansada, nunca de mau humor, pode, sem nenhuma má intenção, alimentar a ilusão de que finalmente encontramos companhia. Mas companhia que nunca se cansa de nós também nunca corre risco nenhum por estar conosco. E talvez seja exatamente esse risco, o risco de ser visto por outro ser humano, com tudo que isso implica de exposição e vergonha e coragem que cura.

Precisamos ser reconhecidos por alguém que também pode nos decepcionar, nos confrontar, se emocionar, errar, ficar em silêncio porque não sabe o que dizer. É dentro dessa imperfeição compartilhada que o autoconhecimento deixa de ser teoria e se torna experiência.

Não estou dizendo que a inteligência artificial não tenha lugar nesse processo. Tem, e cada vez terá mais. Pode ser ponte, primeiro passo, ensaio antes da cena real, pode ajudar alguém a organizar o que sente antes de finalmente ligar para um analista. Mas ponte não é destino e acompanhamento psicoterapêutico, no sentido mais profundo da palavra, exige duas presenças falíveis, vivas, mortais... Dispostas a se encontrar repetidamente ao longo do tempo, até que algo, entre elas, se transforme.

A saúde mental não se constrói apenas com respostas certas. Constrói-se com encontro, e encontro, por definição, é o que não se programa.

Talvez a pergunta não seja se a inteligência artificial pode substituir a terapia. Talvez a pergunta verdadeira seja outra, mais incômoda: estamos dispostos, ainda, a sermos vistos por outro ser humano, com tudo que isso custa?

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