O Egoísmo como Obstáculo Ético

Todo mundo já conheceu alguém, às vezes a si mesmo, que confunde autocuidado com auto centramento. A filosofia discute isso há séculos, bem antes da psicanálise dar nome ao fenômeno. Sócrates, Platão, Aristóteles e Kant, cada um à sua maneira, chegaram à mesma conclusão incômoda: o egoísmo não liberta, aprisiona. Neste texto, cruzo esses quatro pensadores com o que vejo, todos os dias, no consultório.

PSICANÁLISECOMPORTAMENTOFILOSOFIA

Prof. Marcelo Magoga

7/16/20262 min read

Há um analisando que, em algum momento da análise, sempre chega a essa mesma parede: a percepção de que viver girando só em torno de si é, paradoxalmente, uma forma de empobrecimento. Não é acaso. A filosofia já sabia disso há mais de dois mil anos, e vale a pena revisitar esse percurso, não como erudição vazia, mas como ferramenta de autoconhecimento.

Sócrates foi o primeiro a apontar o dedo para essa armadilha. Para ele, o egoísmo não é maldade, é ignorância: quem se fecha em si mesmo simplesmente não enxerga que o bem individual e o bem coletivo nascem da mesma raiz. A eudaimonia, essa felicidade que não é euforia passageira, mas plenitude de existir, só aparece quando o sujeito deixa de tratar o próprio desejo como bússola única.

Platão, discípulo dele, deu corpo a essa ideia na alegoria da caverna. O egoísta, no fundo, é o prisioneiro que se apega às sombras na parede: prazer imediato, aparência, satisfação rápida. Ele resiste a sair porque a luz incomoda, exige esforço, exige abrir mão do conforto de já saber tudo sobre si mesmo. Na psicanálise chamamos isso de outra coisa, mas o mecanismo é irmão: a alma, dizia Platão, só encontra harmonia quando a razão, e não o apetite, assume a condução. Sem isso, o sujeito se fragmenta por dentro, e a sociedade se fragmenta junto.

Já Aristóteles, que foi aluno de Platão antes de fundar o próprio Liceu, tinha outro estilo: menos místico, mais prático. Na Ética a Nicômaco, obra que carrega o nome de seu filho e que segue sendo referência viva na ética contemporânea, ele define a virtude como equilíbrio entre excesso e falta. O egoísmo, nessa lógica, é o excesso de autointeresse. E há uma frase dele que resume bem o problema: somos animais políticos, feitos para a convivência. Um egoísmo levado ao limite não é apenas moralmente questionável, é uma contradição com a nossa própria natureza.

Séculos depois, Kant chega com outro vocabulário, mas na mesma direção. Para ele, uma ação egoísta simplesmente não passa no teste do imperativo categórico: se todo mundo agisse só pensando em si, o resultado seria caos social, não convivência. A moral, para Kant, exige reconhecer a dignidade e a autonomia do outro como um dado inegociável. E não é à toa que seu lema mais famoso, Sapere Aude, ouse saber, não é um convite ao individualismo intelectual, mas ao contrário: pensar por conta própria para, com mais lucidez, viver melhor em sociedade.

O que esses quatro pensadores, tão diferentes entre si, deixam como legado comum é isto: o egoísmo não é só um problema de caráter, é um obstáculo estrutural. Ele mina o desenvolvimento pessoal e, ao mesmo tempo, corrói o tecido que sustenta a vida em comum. Ser humano, nesse sentido, é um exercício constante de sair do próprio centro, reconhecer que o outro não é ameaça nem obstáculo, mas justamente o caminho pelo qual a nossa própria humanidade se realiza.

Na prática clínica, vejo isso todos os dias: o sofrimento raramente vem do excesso de olhar para o outro. Vem, quase sempre, do aprisionamento num "eu" que se tornou pequeno demais para conter uma vida inteira.

© 2026 Marcelo Magoga Psicanalista. D.R.