A Ansiedade Liquefeita*

Um ensaio sobre o impacto do excesso de estímulos virtuais na saúde mental contemporânea. A partir do pensamento filosófico francês, o artigo discute a ansiedade não como uma fraqueza isolada, mas como o resultado da perda de conexão com a nossa própria carnalidade e com o espaço geográfico que habitamos. Qual escolher?

FILOSOFIAPSICANÁLISECOMPORTAMENTO

Prof. Marcelo Magoga

7/10/20262 min read

Sentar-se à mesa de um café e observar o entorno tornou-se um ato de resistência existencial. Ao nosso redor, os rostos não miram o horizonte ou o vapor que sobe das xícaras; eles estão inclinados, magnética e tragicamente, em direção às telas luminosas que carregam nos bolsos. Maurice Merleau-Ponty, o filósofo que compreendeu a nossa carne como o próprio ponto de ancoragem no universo, nos lembraria de que nós não temos um corpo, nós somos o nosso corpo em plena abertura para o mundo. O que ocorre, então, quando esse mundo deixa de ser feito de matéria, peso e toque, transformando-se em um fluxo infinito de dados abstratos e estímulos intangíveis?

A resposta contemporânea a esse divórcio perceptivo atende pelo nome de ansiedade.

Não estamos mais habitando o espaço geográfico ou o tempo cronológico das estações. Vivemos, na verdade, colonizados por uma urgência algorítmica que nos exige uma reação imediata a estímulos que sequer se consolidaram em nossa experiência vivida. Quando o pensador francês nos convida a retornar "às coisas mesmas", ele aponta para a importância da percepção originária, aquela que se dá no contato tátil, visual e concreto com a realidade. Em contrapartida, a sociedade atual promove um bombardeio de representações e imagens estéreis, forçando o nosso esquema corporal a se contrair em uma imobilidade física crônica, enquanto a mente opera em uma aceleração artificial e exaustiva. Essa fratura gera um sofrimento profundo.

O mal-estar da nossa época não provém de uma fraqueza orgânica isolada, mas sim de uma desconexão severa com a nossa própria carnalidade. Urge desacelerar o olhar e restituir ao corpo o direito de sentir o tempo em sua passagem lenta e natural, saboreando a densidade de cada instante sem a pressa imposta pela métrica do engajamento digital. Clínicos e pensadores da mente humana testemunham diariamente essa busca pelo resgate do sentido da presença.

Reconhecer que somos seres-no-mundo implica aceitar que nossa cura passa pelo abraço à nossa finitude e pela reconstrução de laços genuínos com o espaço que pisamos e com os outros que nos cercam.

Para compreender como a nossa relação com o corpo molda diretamente a saúde mental, vale a pena aprofundar-se na Fenomenologia de Merleau-Ponty. Essa perspectiva filosófica demonstra que o contato com a realidade não é meramente intelectual: nós compreendemos e significamos o mundo a partir da nossa vivência corporal e sensorial. Aqui um vídeo didático, com explicação breve e clara, sobre a Fenomenologia de Merleau-Ponty.

* O título é uma referência a Sociologia de Zygmunt Bauman, embora o foco do artigo seja Merleau-Ponty, a palavra "liquefeita" evoca imediatamente o conceito de Modernidade Líquida de Bauman. É uma associação de "líquido" à fragilidade das relações, à volatilidade do tempo e à falta de pontos fixos na nossa era.

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